Oriunda de uma família de
nove pessoas (pai, mãe e sete filhos) e de baixo poder aquisitivo, passei por
algumas privações e limitações. Sobravam tristeza e sonhos.
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| "Guarda-roupa" |
Sonhava ter um
guarda-roupa com opções para escolher o que usar. Eu tinha uma caixa de papelão;
pequena, pois era suficiente para as poucas peças que me vestiam. O novo pra
mim era o velho que já não cabia na minha irmã.
Sonhava também em ter um estojo
cheio de lápis e canetas. No inicio das aulas ganhava lápis com borracha, mas
por algumas vezes era preciso quebrar um lápis ao meio para dividir com minha
irmã.
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| Casa de Taipa |
Morar em casa de taipa ou madeira
até que não me frustrava tanto, mas sonhava em ter uma casa com terraço. Continuei
sonhando mais alto. Dessa vez passei a desejar uma casa sem goteiras nem
brechas entre as madeiras, evitando pingos de chuvas e raios de luz. A
claridade sempre incomodou meu sono.
Na medida em que os desejos
eram realizados os sonhos foram ficando mais sofisticados. Que tal uma casa sem
piso de areia batida, nem cimento crespo? Eu queria ter o prazer de passar cera
na casa com o tal do rodo. Achava isso chic.
O que pra muitas pessoas
era algo comum, pra mim era sinal de riqueza. Aos poucos os sonhos foram se
realizando com guarda-roupa, roupas novas, lápis inteiros só pra mim e também canetas,
ambos dentro do estojo. Casa de alvenaria, com terraço, sem goteiras nem raios
de luz, e com piso para usar o tal do rodo. Olha que chic.
Chic mesmo foi sofisticar
mais os sonhos e realizá-los entrando numa universidade federal, seguida de uma pós-graduação.
Os sonhos não acabaram, mas de tão sofisticados tornaram-se ainda mais difíceis
de conquistar. Continuo a sonhar.